Conselheira-presidente e membro auxiliar da Comissão da Saúde do CNMP abordam saúde mental em congresso

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Publicado em 28/9/21, às 09h00.

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24 09 21 sandra krieger saude mental“Ser conselheira, advogada e mãe é só uma parte de mim. Preciso prestar atenção em mim mesma para saber quem efetivamente eu sou. O agora é essencial; é a vida que hoje existe; é a parte mais importante de todos nós. A gente não pode se deixar enredar na armadilha de não prestar atenção em nós mesmos porque não temos tempo, porque somos muito ocupados ou porque temos uma perspectiva de futuro que talvez não aconteça.” A afirmação foi feita pela presidente da Comissão da Saúde do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), conselheira Sandra Krieger (foto), durante a palestra “Saúde mental e trabalho”, ministrada nessa sexta-feira, 26 de setembro, no I Congresso Brasileiro de Saúde Mental Coletiva.

Na ocasião, a conselheira contextualizou cenários pré e pós-pandemia da Covid-19 durante a elaboração do Projeto Bem Viver – Saúde Mental no Ministério Público, que envolve uma série de ações com o objetivo de preservar e promover a saúde mental dos membros e servidores do Ministério Público brasileiro.

Nesse sentido, Krieger afirmou que, “às vezes, o ambiente de trabalho é opressor, mas é bem mais opressor ficar em casa trancado em um quarto, com as crianças sem ir à escola e com aulas on-line, em um mundo de isolamento e de uma perspectiva familiar que deixou a gente desconcertado. E, ao mesmo tempo, com a pressão de realização de metas, de atendimentos e de resoluções de problemas, somada ao luto pelas perdas de parentes, amigos e colegas. Nesse cenário, a saúde mental passou a ser muito mais desafiadora numa organização”.

A conselheira chamou a atenção para o fato de quatro mil servidores, membros e colaboradores do Ministério Público brasileiro terem respondido ao questionário sobre as condições de saúde mental na instituição. A amostragem científica inicial necessária para a elaboração do relatório era de 800 respondentes. “Esse questionário foi elaborado pela ciência, com metodologia validada internacionalmente por pesquisadores e psicólogos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Eles tinham expertise em trabalho dessa natureza, mas não dessa envergadura”, disse Krieger.

Salientou ainda, com base nas respostas obtidas, que o CNMP poderá agir preventivamente antes que alguém isolado em casa, com uma crise depressiva, não consiga responder ao seu trabalho e seja processado pela Corregedoria. “Até descobrir que aquela pessoa era muito produtiva e que caiu num buraco sem fim, ela já terá sido processada e terá ficado pior. E, muitas vezes, terá sido até aposentada por invalidez”.

De acordo com Krieger, é preciso trazer para a realidade concreta as causas e as consequências da depressão, do transtorno do pânico, do burnout e da fadiga emocional. “De certa forma, ao falar do assunto, a gente melhora um pouco a vida das pessoas”.

Tempo 
24 09 21 jairo bisol congresso saude mentalA palestra “Saúde mental e trabalho” também foi ministrada pelo promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e membro auxiliar da Comissão de Saúde do CNMP, Jairo Bisol (foto).

Em sua apresentação, o promotor salientou que a sociedade atual nos impõe acelerar o ritmo de vida para não perdermos status, ou seja, para nos mantermos aonde estamos. “Partimos da máxima liberal do tempo é dinheiro e chegamos a uma sociedade do tempo escasso”. O trabalho nos consome cada vez mais. Não temos tempo para manter nosso patrimônio cultural, como frequentar cinemas, teatros e shows, ou nosso patrimônio social, que consiste nas relações com a família, com amigos e com grupos. Também não temos tempo para administrar adequadamente nosso patrimônio sanitário, tal como se dedicar aos exercícios físicos, ao lazer e à saúde mental.

Ao afirmar que a depressão é umas das principais enfermidades da atualidade, Bisol complementou que “é preciso encontrar soluções no trabalho, em especial, para enfrentar esse problema gravíssimo”.

Além disso, o promotor pontuou que a vida acelerada acarreta quadros de depressão e de ansiedade, que são confundidas com nossas tristezas naturais. “É necessário dispor de tempo para poder extrair a doçura da vida dos favos de nossas tristezas naturais; essas tristezas são fundamentais para nossa construção como sujeito. Mas as tristezas oriundas da depressão e da ansiedade não possuem favos: são buracos que nos consomem, imensos vazios”.

Bisol aproveitou a palestra para parabenizar a conselheira Sandra Krieger pela iniciativa do Projeto Bem Viver – Saúde Mental no Ministério Público. “Trata-se de um trabalho denso e qualificado, que resultará mais do que em subsídio para a construção de uma política institucional de cuidados com a saúde mental, num diagnóstico científico precioso para todos os ramos do Ministério Público brasileiro”.

A palestra “Saúde mental e trabalho” foi mediada pela procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado do Ceará e presidente da Ampasa, Isabel Porto. 

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